A expectativa de vida da população trans segue sendo um dos indicadores mais alarmantes das desigualdades estruturais no Brasil e no mundo. Estudos apontam que pessoas trans vivem cerca de 35 anos em média. Esse número, que há décadas circula como um alerta sobre exclusões sistemáticas, não reflete um destino biológico, mas sim um conjunto de violências que moldam a trajetória de pessoas trans desde a infância.
A disparidade não pode ser explicada por um único fator. Ela é produzida por camadas de estigma, abandono institucional, pobreza estrutural, exclusão escolar, dificuldade de acesso à saúde, marginalização econômica, violência física e discriminação persistente. Assim como ocorre nas discussões sobre prevenção ao HIV, bloqueio puberal ou acesso ao mercado de trabalho, as vidas trans seguem vulnerabilizadas por sistemas que deveriam protegê-las, mas que, em muitos casos, reforçam o ciclo de desigualdade.
Entender por que a expectativa de vida é tão reduzida exige um olhar atento sobre os contextos que determinam a sobrevivência e, acima de tudo, sobre o que pode mudar para que essa realidade não continue se repetindo.
Vulnerabilidade estrutural: quando a desigualdade começa antes mesmo da vida adulta!
A expectativa de vida da população trans é profundamente moldada por fatores que surgem muito antes da vida adulta. A expulsão ou evasão escolar forçada, decorrente de bullying, violência física, discriminação e ausência de proteção, é uma das primeiras quebras na trajetória de cuidado. Sem acesso à educação, oportunidades profissionais tornam-se escassas e grande parte das pessoas trans é empurrada para trabalhos informais e, particularmente no caso de mulheres trans, para a prostituição como meio de sobrevivência.
Assim como no diagnóstico tardio do HIV, a vulnerabilidade não está no comportamento individual, mas na falta de oportunidades seguras. O risco não nasce do corpo trans, mas do contexto que o cerca. Sem políticas de inclusão escolar, sem segurança nas escolas e sem mediação familiar adequada, a trajetória de exclusão começa cedo e se perpetua ao longo da vida.
A falta de acesso ao mercado formal reforça um ciclo que combina pobreza, marginalização e exposição constante à violência urbana. Pessoas trans estão entre os grupos mais atingidos por homicídios, violência física, assédio sexual, agressões motivadas por ódio e violações de direitos humanos. E a violência acumulada não apenas reduz a expectativa de vida de forma direta, mas fragiliza a saúde mental e física de maneira contínua.
Transfobia institucional: o peso das instituições que deveriam proteger!
Se existe um elemento que está presente em praticamente todos os relatos da população trans, é o medo de buscar ajuda institucional. A transfobia institucional, que se manifesta em delegacias, escolas, consultórios médicos, empresas, repartições públicas e até mesmo em serviços de assistência social, compromete diretamente a sobrevivência dessa população.
No campo da saúde, o impacto é particularmente grave. Muitas pessoas trans deixam de procurar atendimento, mesmo quando têm sintomas relevantes, por receio de discriminação, humilhação, uso do nome civil, abordagens invasivas ou negação de cuidados básicos. Essa realidade se aproxima das barreiras enfrentadas para diagnóstico precoce do HIV, mas vai muito além. Ela atravessa exames de rotina, tratamentos preventivos, consultas psicológicas, acompanhamento hormonal e cuidados emergenciais.
Quando a instituição que deveria proteger se torna um espaço de violência simbólica ou real, o acesso à saúde deixa de ser um direito e se transforma em um território hostil. E o resultado disso é devastador: doenças não diagnosticadas, problemas hormonais não tratados, infecções que evoluem, sofrimento emocional crescente e fugas constantes do sistema de saúde.
Estigma e violência: fatores determinantes que abreviam vidas
A expectativa de vida reduzida da população trans não pode ser compreendida sem reconhecer a centralidade da violência. O Brasil segue liderando rankings internacionais de assassinatos de pessoas trans. A maior parte dessas mortes ocorre em contextos de extrema vulnerabilidade, expulsão familiar, prostituição, ausência de proteção policial e precariedade habitacional.
Mas há também violências menos visíveis, como a negação de oportunidades, o isolamento social, o abandono familiar, a discriminação cotidiana e o desrespeito às identidades nos ambientes de trabalho. O estigma é um fator de risco que adoece o corpo e a mente. Ele afasta a pessoa trans do cuidado, reduz vínculos sociais, fragiliza redes de apoio e cria um ambiente onde sobreviver já exige um esforço desproporcional.
Esse estigma também atravessa o sistema de saúde de forma semelhante ao observado no contexto do HIV. As mesmas barreiras que dificultam o diagnóstico precoce de infecções sexualmente transmissíveis dificultam a realização de exames gerais, acompanhamento de doenças crônicas, prevenção do câncer, acesso a ginecologia e urologia afirmativas, e tratamentos psicológicos adequados.
Quanto menor o acesso ao cuidado contínuo, maior o risco de agravamento de doenças evitáveis e de problemas que poderiam ser tratados se o sistema fosse acolhedor.
Falta de políticas públicas específicas e comunicação inclusiva
Embora o país tenha avançado em políticas relacionadas à saúde LGBTQIAPN+, ainda há um abismo entre o que está previsto nas diretrizes e o que acontece na prática. Poucos serviços são realmente inclusivos. A formação médica ainda aborda identidade de gênero de maneira superficial, a comunicação em saúde raramente inclui pessoas trans de forma representativa e políticas de inclusão no mercado de trabalho ainda são insuficientes.
Esse distanciamento entre teoria e prática impacta diretamente a expectativa de vida. Sem políticas específicas, os serviços não respondem de maneira adequada às necessidades reais da população trans. Falta preparo para lidar com hormonização, falta conhecimento sobre anatomias diversas, falta de diálogo entre família e escolas, falta de suporte emocional, falta de educação continuada são alguns dos obstáculos.
E, quando a comunicação pública não inclui pessoas trans, reforça-se a ideia de que elas não fazem parte do público-alvo das políticas de cuidado, desse modo, a invisibilidade institucional torna-se mais um elemento que encurta vidas.
Saúde mental: a ferida aberta que também reduz anos de vida!
Pessoas trans enfrentam índices alarmantes de depressão, ansiedade e tentativas de suicídio. Esses indicadores não são consequência da identidade de gênero, mas do ambiente hostil, da falta de acolhimento, da transfobia e do abandono familiar.
Quando a violência é cotidiana e o acesso ao cuidado psicológico é limitado, seja por falta de preparo ou por medo de ser discriminado(a), a saúde mental se fragiliza de formas cumulativas. O sofrimento emocional constante tem impacto direto na expectativa de vida, seja por adoecimento, seja por riscos relacionados a tentativas de suicídio, seja por comportamentos que surgem como forma de sobrevivência emocional diante da ausência de apoio adequado.
O que pode mudar: caminhos possíveis para prolongar vidas trans
Se a expectativa de vida é determinada por fatores sociais e estruturais, ela também pode ser ampliada por políticas e ações concretas. Assim como no cenário do HIV, a mudança depende de estratégias integradas e contínuas.
Prolongar vidas trans exige acolhimento, políticas públicas específicas, formação profissional, ambientes seguros, acesso real à saúde e combate firme à violência e ao estigma. Exige também que famílias, escolas, instituições e serviços passem a compreender que a vida trans não precisa ser uma vida de risco, ela pode ser uma vida de dignidade, cuidado e direitos.
Mudar esse cenário não é apenas possível, é urgente!
Construindo futuros possíveis para a população trans
Falar sobre expectativa de vida da população trans é falar sobre vidas interrompidas, sobre desigualdades evitáveis e sobre a urgência de políticas públicas que promovam dignidade. A expectativa de vida só será ampliada quando a transfobia estrutural for enfrentada com seriedade, quando as instituições se tornarem acolhedoras e quando a sociedade deixar de enxergar identidades trans como exceções para compreendê-las como parte legítima da diversidade humana.
Não é a identidade trans que reduz a longevidade. É o mundo ao redor! E, por isso, o que pode mudar depende de todos: profissionais, escolas, famílias, gestores públicos, mídia, sistemas de justiça e saúde.
Quando o cuidado ultrapassa o discurso e se transforma em prática concreta, a vida trans se amplia em anos, em dignidade e em possibilidades.