A endometriose é tradicionalmente associada à saúde de mulheres cisgênero, mas essa associação automática pode gerar invisibilidade diagnóstica.
A pergunta que ainda causa estranhamento em muitos espaços de saúde é: homens trans podem sofrer com endometriose?
A resposta é sim.
Isso porque homens trans que mantêm útero e ovários podem desenvolver endometriose ou continuar apresentando a doença mesmo após iniciarem terapia hormonal com testosterona.
Ignorar essa possibilidade pode atrasar diagnósticos, prolongar sofrimento e comprometer qualidade de vida.
Compreender a relação entre identidade de gênero, anatomia e condições ginecológicas é fundamental para uma medicina verdadeiramente inclusiva e responsável.
O que é endometriose?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica onde o tecido endometrial, que reveste o útero, cresce fora da cavidade uterina, afetando diversos órgãos da região pélvica.
Esse tecido pode se implantar em regiões como:
- Ovários
- Trompas
- Ligamentos uterinos
- Bexiga
- Intestino
Por responder a estímulos hormonais, especialmente ao estrogênio, esses focos ectópicos sofrem alterações cíclicas, podendo causar inflamação, dor e formação de aderências.
É uma condição que pode impactar a fertilidade, a qualidade de vida e a saúde mental.
Identidade de gênero e anatomia: por que isso importa?
Homens trans são pessoas designadas mulheres ao nascer, mas que se identificam com o gênero masculino.
Do ponto de vista anatômico, muitos homens trans mantêm útero e ovários, seja por escolha pessoal, por questões médicas ou por acesso limitado a procedimentos cirúrgicos.
A presença desses órgãos significa que condições ginecológicas, como a endometriose, continuam sendo possíveis.
Portanto, a saúde ginecológica não deve ser confundida com identidade de gênero, ela está relacionada à anatomia presente.
A testosterona impede a endometriose?
A terapia hormonal com testosterona pode levar à amenorreia (ausência de menstruação) em muitos homens trans. No entanto, isso não garante supressão completa da atividade endometrial.
A testosterona pode reduzir a espessura do endométrio, pode diminuir sangramentos e pode atenuar sintomas. Mas não elimina completamente o risco do desenvolvimento da endometriose.
Por que o diagnóstico pode ser mais difícil?
O diagnóstico da endometriose já é desafiador em mulheres cisgênero. Em homens trans, ele pode ser ainda mais complexo devido a fatores como:
- Desconforto em buscar atendimento ginecológico
- Profissionais despreparados para atendimento inclusivo
- Negligência da possibilidade diagnóstica
- Barreiras institucionais
Além disso, muitos homens trans evitam exames pélvicos por disforia de gênero, o que pode atrasar a investigação adequada.
Sintomas possíveis de endometriose em homens trans
Em homens trans, os sintomas podem incluir:
- Dor pélvica crônica
- Dor profunda durante penetração vaginal
- Dor ao evacuar
- Desconforto urinário cíclico
- Sangramento irregular
Mesmo na ausência de menstruação visível, a inflamação pode persistir internamente. Por isso, é fundamental que a dor seja validada e não descartada com base em suposições sobre identidade de gênero.
Dor pélvica não é “normal”!
Muitos homens trans relatam que suas queixas são minimizadas ou atribuídas exclusivamente à adaptação hormonal. No entanto, a dor persistente não deve ser considerada efeito colateral inevitável.
A investigação adequada deve incluir:
- Ultrassonografia pélvica
- Ressonância magnética
- Avaliação clínica especializada
- Videolaparoscopia diagnóstica
A laparoscopia continua sendo o padrão-ouro para confirmação diagnóstica da doença.
Tratamento da endometriose em homens trans
Em homens trans, o tratamento dessa condição deve ser individualizado, considerando:
- Intensidade dos sintomas
- Desejo reprodutivo
- Uso de terapia hormonal
- Presença de outras condições associadas
As opções podem incluir:
- Ajuste da dose de testosterona
- Bloqueadores hormonais adicionais
- Analgésicos específicos
- Cirurgia laparoscópica para remoção de focos
- Histerectomia e ooforectomia, quando indicadas
A decisão cirúrgica deve ser cuidadosamente discutida, levando em conta objetivos pessoais e riscos envolvidos para os pacientes.
Histerectomia resolve completamente?
A histerectomia consiste na retirada do útero, o que pode reduzir significativamente os sintomas relacionados à menstruação e à dor uterina. No entanto, a endometriose pode persistir se houver focos fora do útero.
Sendo assim, a abordagem cirúrgica deve ser planejada de forma abrangente, considerando toda a extensão da doença.
Endometriose e fertilidade em homens trans
Alguns homens trans desejam gestar no futuro. Nesse caso, a endometriose pode impactar fertilidade ao causar:
- Aderências tubárias
- Alteração da função ovariana
- Inflamação crônica pélvica
Por isso, discutir a preservação da fertilidade antes de intervenções cirúrgicas é parte do cuidado responsável.
Invisibilidade também adoece!
Quando a medicina associa automaticamente determinadas doenças a um gênero específico, cria-se invisibilidade diagnóstica.
Para além da endometriose, homens trans também podem desenvolver outras doenças ginecológicas, como miomas, cistos ovarianos, entre outros.
Negar essa possibilidade compromete o princípio básico da prática médica: avaliar o paciente diante de sua anatomia e sintomas.
A importância do cuidado inclusivo
Profissionais de saúde precisam compreender que homens trans podem necessitar de acompanhamento ginecológico, que o uso do nome social é essencial, que a linguagem deve ser respeitosa e os exames devem ser explicados com sensibilidade.
A exclusão institucional contribui para o atraso do diagnóstico e da piora clínica. Acolhimento não substitui técnica, mas técnica sem acolhimento também não é suficiente.