SOP agora tem nova nomenclatura: entenda mais sobre SOMP!

A antiga Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma das condições mais frequentes entre mulheres cisgênero e homens trans, que possuem ovários, em idade reprodutiva e, ao mesmo tempo, uma das mais complexas da medicina contemporânea. Apesar de ser amplamente conhecida, ainda hoje é frequentemente mal compreendida, tanto pela população quanto em parte da prática clínica, especialmente pela forma simplificada como foi historicamente nomeada.

Nos últimos anos, um movimento científico internacional vem propondo uma atualização importante nesse conceito: a mudança não apenas na forma de entender a condição, mas também na forma de nomeá-la. Surge, assim, o termo Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), uma nomenclatura mais precisa, que busca refletir a real complexidade da doença.

Essa mudança representa muito mais do que uma atualização terminológica. Ela sinaliza uma nova forma de olhar para a condição: menos fragmentada, mais sistêmica e mais alinhada às evidências científicas atuais.

Por que o nome “SOP” já não é suficiente?

O termo “Síndrome dos Ovários Policísticos” carrega uma limitação importante desde sua origem: ele sugere que a doença está restrita aos ovários e à presença de “cistos”. No entanto, esse entendimento não corresponde à realidade clínica observada.

Estudos mostram que a presença de “ovários policísticos” não é obrigatória para o diagnóstico; a condição envolve múltiplos sistemas hormonais e metabólicos; a disfunção não se limita ao ovário, mas envolve eixos endócrinos centrais e periféricos.

Essa desconexão entre nome e fisiopatologia real gera consequências relevantes na prática clínica e na experiência de pacientes. Entre elas, destacam-se:

  • atraso no diagnóstico, já que muitas pessoas não se reconhecem no nome “SOP”
  • fragmentação do cuidado, com foco apenas em sintomas isolados
  • estigmatização, especialmente relacionada à fertilidade
  • desinformação tanto entre pacientes quanto entre profissionais
  • dificuldade na comunicação científica e clínica

Além disso, a nomenclatura antiga limita a forma como a condição é compreendida em políticas de saúde e em pesquisas, dificultando avanços mais integrados.

O que é a Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP)?

A SOMP surge como uma redefinição baseada em evidências acumuladas ao longo de décadas e em consensos científicos recentes. Ela descreve uma condição multissistêmica, caracterizada por alterações interligadas em três grandes eixos:

1. Eixo poliendócrino
A dimensão hormonal é central na SOMP e envolve alterações complexas, como: aumento da pulsatilidade do GnRH, elevação do LH, hiperandrogenismo de origem ovariana e, em alguns casos, adrenal e disfunções na regulação neuroendócrina central. Essas alterações explicam manifestações clínicas comuns, como acne persistente, hirsutismo e irregularidades menstruais.

O termo “poliendócrino” reforça que não se trata de uma alteração isolada, mas de uma desregulação hormonal ampla.

2. Eixo metabólico
A dimensão metabólica é uma das mais relevantes da SOMP e é frequentemente subestimada na abordagem tradicional da antiga SOP.

Grande parte das(os) pacientes apresenta algum grau de resistência à insulina, o que pode estar associado a:

  • obesidade central
  • intolerância à glicose
  • diabetes tipo 2
  • dislipidemia
  • hipertensão arterial
  • esteatose hepática metabólica
  • aumento do risco cardiovascular

A resistência à insulina não é apenas uma consequência da condição, mas também um fator que contribui para o agravamento do hiperandrogenismo, criando um ciclo de retroalimentação metabólico-hormonal.

3. Eixo ovariano
O componente ovariano permanece importante, mas deixa de ser interpretado como elemento isolado. As alterações incluem: oligo ou anovulação, irregularidade menstrual, infertilidade, disfunção na foliculogênese, aumento do hormônio antimülleriano (AMH) e padrão ovariano multifolicular na ultrassonografia.

Um ponto fundamental da nova nomenclatura é a revisão do conceito de “cistos ovarianos”. Eles não representam cistos patológicos, mas sim folículos imaturos em diferentes estágios de desenvolvimento.

Manifestações clínicas da SOMP: uma condição sistêmica

Como já foi dito, a SOMP não se limita apenas ao sistema reprodutivo. Trata-se de uma condição que impacta múltiplos sistemas do organismo. Ela suas manifestações, estão:

Manifestações Metabólicas

  • síndrome metabólica
  • resistência à insulina
  • diabetes tipo 2
  • aumento do risco cardiovascular

Manifestações Reprodutivas

  • ciclos menstruais irregulares
  • infertilidade
  • complicações gestacionais
  • risco aumentado de hiperplasia endometrial

Manifestações Dermatológicas

  • acne persistente
  • hirsutismo
  • alopecia androgenética

Manifestações Psicológicas

  • ansiedade
  • depressão
  • transtornos alimentares
  • redução da qualidade de vida

Esse conjunto reforça que a SOMP é uma síndrome sistêmica, com impacto físico, emocional e social.

Critérios que sustentaram a mudança de nomenclatura

A proposta da SOMP foi construída com base em critérios científicos e clínicos rigorosos, sendo eles: precisão científica, clareza comunicacional, redução do estigma, adequação cultural global e viabilidade de implementação clínica.

A escolha dos termos “metabólica”, “poliendócrina” e “ovariana” reflete diretamente a fisiopatologia da condição, oferecendo uma descrição mais fiel e abrangente.

A implementação do novo nome já está valendo?

Sim. A transição da nomenclatura SOP para SOMP está sendo conduzida de forma gradual, estruturada e progressiva, com previsão de adaptação ao longo de aproximadamente três anos.

As principais etapas incluem:

  • publicação e consolidação científica
  • atualização de diretrizes clínicas
  • integração em sistemas de saúde
  • educação de profissionais e pacientes
  • alinhamento com classificações internacionais (como CID)
  • estratégias globais de comunicação

Essa transição busca evitar confusões e garantir adaptação segura em diferentes contextos de saúde.

Impactos clínicos e científicos da nova nomenclatura:

A adoção da SOMP traz implicações importantes para diferentes áreas.

Para pacientes: melhor compreensão da condição, redução do estigma, diagnóstico mais precoce e abordagem mais integrada.

Para profissionais de saúde: maior precisão diagnóstica, comunicação interdisciplinar mais eficiente, condutas mais individualizadas e alinhamento com evidências atuais.

Para a ciência: padronização internacional, maior qualidade em pesquisas e avanço no desenvolvimento de terapias.

 

Uma mudança que redefine o entendimento da condição!

A transição de SOP para SOMP representa um avanço significativo na forma como uma das condições mais prevalentes entre mulheres é compreendida.

Ao substituir uma nomenclatura limitada por um termo que contempla sua complexidade hormonal, metabólica e ovariana, abre-se espaço para uma abordagem mais precisa, integrada e humanizada. Essa mudança reforça que a linguagem médica não é apenas descritiva, ela influencia diagnósticos, orienta condutas e impacta diretamente a experiência das(os) pacientes.

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